“E Eu Não Sou Uma Mulher?” Análise de discurso em veículos jornalísticos brasileiros sobre as mulheres transgêneros nas Olimpíadas de 2024. A 1ª em equidade de gênero.

Autores

  • Salete Maria Bernardo do Santos Autor
  • Maria do Socorro Aguiar de Oliveira Cavalcante Autor

DOI:

https://doi.org/10.69849/ywz13319

Palavras-chave:

Discurso, Feminismo negro, Identidade de gênero, Raça

Resumo

O cerne do artigo é entender como o pronunciamento de Truth, feito em 1851 na Convenção dos Direitos das Mulheres, —“e eu não sou uma mulher?” —, repercutena construção de sentidos históricos sobre as mulheres e na historicidade das lutas étnico-raciais, de classe e de gênero. A pergunta norteadora busca analisar as condições de produção que moldaram a luta de mulheres negras pela igualdade no século XIX, empregando a Análise de Discurso Materialista (ADM) baseada em Pêcheux (França) e Orlandi (Brasil). A referência a Judith Butler ilumina o debate sobre sexo e gênero como construções sociais. No período pré-abolição, mulheres negras precisavam reafirmar-se como mulheres diante de humilhações que as reduziam a animais ou não humanas; hoje, as mulheres trans também enfrentam a necessidade de afirmação de identidades, mesmo quando seus corpos desafiam categorias femininas tradicionais. Butler enfatiza a ideia de que o “sexo” é historicizado e contestado, não determinado ao nascer; a identidade de gênero é performativa e socialmente produzida. Dessa forma, as diferenças sexuais não são apenas biológicas, mas sustentadas por estruturas sociais que atribuem significados sobre gênero e sexualidade. A análise argumenta que as identidades de gênero são performativas, moldadas por práticas discursivas e relações de poder. O discurso de Truth funciona como um marco que desafia as hierarquias de gênero e raça, abrindo espaço para compreender como as lutas das mulheres negras nos séculos XIX e XX se conectam às lutas interseccionais de classe e de sexualidade. Para tanto, serão adotados os pressupostos teórico metodológicos da Análise de Discurso Materialista, a partir dos trabalhos de Pêcheux, na França, e Orlandi, no Brasil. Isso significa dizer que nos inscrevemos numa perspectiva de entremeio, fluida (não positivista) e aberta. Ao tratar das condições de produção Orlandi (2017, p. 17) assinala que “o sujeito e a situação (...) contam fundamentalmente para a análise de discurso (...) na medida em que são redefinidos discursivamente como parte das condições de produção do discurso”. Conclui-se que o sexo nunca funciona de forma absolutamente separada do gênero; as diferenças sexuais são, de fato, construídas socialmente como gênero. Essas diferenças operam, discursivamente, por meio da invocação performativa do gênero, atribuindo-lhe, assim, um sentido presumido.

Referências

BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2009. Tradução: Sérgio Milliet.

BRITANNICA, Sojourner Truth. In Encyclopedia Britannica. Disponível em hhtps://www.britannica.com/biography/Sojourner-Truth . Acesso em 19 mai. 2023.

BUTLER, Judith. Precisamos parar o ataque a ideologia de gênero. Observatório de Sexualidade e Política SPW, 2019. Tradução: Sonia Corrêa e Carla Rodrigues. Disponível em http://twixar.me/j9VK . Acesso em 1 set. de 2024.

BUTLER, Judith. Desfazendo gênero. Traduzido por: Aléxia Bretas, Ana Luiza Gussen,

Beatriz Zampieri, Gabriel Lisboa Ponciano, Luís Felipe Teixeira, Nathan Teixeira, Petra Bastone e Victor Galdino. Coordenação da tradução Carla Rodrigues – São Paulo: Editora Unesp, 2022.

BUTLER, Judith. Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto? 5. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

Dos tribunais aos Jogos Olímpicos: conheça a história do Boxe feminino Jornal Extra, 2021. https://extra.globo.com/esporte/mma/dos-tribunais-aos-jogos-olimpicos-conheca-historia-doboxe-feminino-24834385.html?service=print Acesso em: 17 jul. 2025.

GRESPAN, Carla Lisboa; GOELLNER, Silvana Vilodre. Fallon Fox: um corpo queer no octógono. Movimento, v. 20, n. 4, p. 1265-1282, out./dez. 2014.

GARCIA, Rafael Marques; PEREIRA, Erik Giuseppe Barbosa. A opinião de atletas e treinadores de voleibol sobre a participação de mulheres trans. Movimento, v. 26, p. e 26068, 2020. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/Movimento/article/view/101993 Acesso em: 20 out. 2024.

MASSMANN, Débora; BERNARDO, Salete. “E eu não sou uma mulher?”: um estudo sobre as condições de produção do movimento feminista negro nos estados unidos no século XIX. O corpo na análise do discurso: conceito em movimento. Organizadoras: Maria Cristina Leandro Ferreira e Luciana Iost Vinhas.1. ed. – Campinas, SP : Pontes Editores, 2023.

Ministra italiana critica supostas atletas trans em Paris sem confirmação. Uol, https://www.uol.com.br/esporte/olimpiadas/ultimas-noticias/2024/07/31/eugeniaroccella-boxe-pessoas-trans-olimpiadas.htm Acesso em: 2 set. 2024.

ORLANDI, E. P. Análise de discurso: princípios e procedimentos. 12. Ed. Campinas: Pontes, 2015.

PÊCHEUX, M. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. 5.Ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2014.

Participação de mulheres trans nas olimpíadas gera polêmica. O antagonista.

https://oantagonista.com.br/mundo/participacao-de-mulheres-trans-nas-olimpiadas-gerapolemica/. Acesso em: 2 set. 2024.

RAMIRES, Lídia. “Eles conseguiram”: os sentidos de “sucesso” no jornalismo de televisão. – Maceió: Edufal; Imprensa Oficial Graciliano Ramos. 2017.

REUTERS, Julien Pretot da. Khelif celebra ouro após polêmica de gênero: “Sou mulher como qualquer outra”. CNN Brasil Esportes,

https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/olimpiadas/khelif-celebra-ouro-apospolemica-de-genero-sou-mulher-como-qualquer-outra/ Acesso em: 2 set. 2024.

SILVA SOBRINHO, Helson Flávio da; RAMIRES, Lídia. Discursos dispersos e articulados: a região Nordeste e os sentidos de evidência reproduzidos na mídia. Línguas e Instrumentos Linguísticos, Campinas, SP, v. 25, n. 50, p. 145-165, jul./dez., 2022.

SOUSA, Victor Pereira de. Desconstruindo a cis-heterossexualidade uma perspectiva decolonial. ARTEFACTUM - Revista de Estudos em Linguagens e Tecnologia, v. 16, n. 1, 2018. Publicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

VECCHIOLI, Demétrio. Uol Esporte, https://www.uol.com.br/esporte/colunas/olharolimpico/2021/11/16/coi-cria-diretriz-para-trans-no-esporte-e-inclui-nao-presuncao-devantagem.htm Acesso em: 26 set. 2024.

Downloads

Publicado

18.03.2026

Como Citar

Santos, S. M. B. do ., & Cavalcante, M. do S. A. de O. . (2026). “E Eu Não Sou Uma Mulher?” Análise de discurso em veículos jornalísticos brasileiros sobre as mulheres transgêneros nas Olimpíadas de 2024. A 1ª em equidade de gênero. Revista Ft, 30(156), 01-13. https://doi.org/10.69849/ywz13319